É terrível acordar depois de ter dormido um dia inteiro com as costas doendo, as pálpebras pulsando e um sutil zunido diabólico ardendo longas pai
sagens insólitas no ouvido.
(ouvido não, orelha. po
rque orelha ainda resta, como vocábulo oficial. mas ouvido me parece muito mais refinado. "sou todo ouvidos" é de antanhos, lembra aquele senhor de g
ravatinha borboleta e bigode curto e irrequieto, oscilando sempre para a esquerda, como um tique irrefreável - mas enfim: ainda respeitável protocolo. "sou todo orelhas" é pedir uma carimbada na testa. às vezes, contudo, eu arrisco. mas ninguém entende. bolas)
acordo com o poente bem pronunciado, as sombras esticadas no gramado e um tom de luz avermelhado que invade a sala nos reflexos poucos mas intensos, se esparramando nas paredes de forma enviesada e calorosa.
em pouco tempo tudo se aquieta, portas se encaixam nos batentes, maçanetas esfriam, geladeiras adormecem. é hora dos relógios começarem seu compassado diálogo: o da sala com o da cozinha, sempre a mesma anedota. se riem ou apenas soluçam, não deixa de ser
igualmente enfadonho: esse motocontínuo de espaços regulares rumo o infinito.
e aqui me sento, então, prestes a reciclar o prato frio que fica sendo o último post, e pra não deixar morrer essa iniciativa, resolvo empunhar novas alegorias do meu pequeno bunker, meu refúgio do mundo novo, onde apenas minhas criações podem, invariavelmente, sobreviver.
lembro - porque quero ampliá-lo - de um poema começado há tempos, nunca terminado. começarei por ele e, se tiver inspiração ainda restando na cachola, hei de fazê-lo engolir seu novo capítulo, agora e já: no improviso que sempre dita a escrita destes posts do meu Cleptocronia:
minhas noites são polaresmuitos sóis sem nome cruzaram minhas cartasem vão catalogo as razões da espéciete vejo sempre longe, trepidante mirageme longe disforme penso que sorri pra mimaceno, incerto de respostaao que acrescentarei, embalado ness
a vaga que me arrasta:
hibernando plácido e memoriosoà espera do dia da hora e lugarque não chovendo te ficarei a sorrircomo um dirigível que lançado à própria sortevomita gotas de chumbo e atômica florsobre antenas e baionetas contra do Deus toda a vontadefeituras do braço, tendões de aramemordaças de sílica e a fome (e a fome)e restando só um - no meio do campo - alguém gritasse:- vai-te daqui, Homem das Fronteiras!Porque só assim teremos Pazmargarina no almoço e no jantaro cão atrás de seu rabo e a criança de plástico à frente dos tanquese que assim
seja.
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