Gavião é bicho sem fronteira, pairando sobre a mata fechada, à espreita sem remorso, do alto onde tudo vê e onde todos o vêem. Meu amor por você é feito bicho de rapinagem, que estremece como se fôra antanhos, e eu fosse o nascido do mundo, nomeando ruminantes e plantas carnívoras por primeira vez.
A cada nova descoberta, aceleraria em mim o desejo de chegar ao final do enredo, de descobrir a chave de tudo, de esconder entre suas demências e tremores, meu amor voluptuoso. Pois é como tomar a criança nos braços e descortinar o mundo de novidades a quem largava-se ao sono dos viventes, hibernando nos trópicos - sem saber que delirantes aventureiros, em tempos remotos, lançaram mãos de eldorados lendários, em vãs jornadas mato adentro.
Agora é tudo seu, agora é tudo nosso - eu só pra você/ você só pra mim.
O resto é o amor em paz.
FICÇÃO, s. f. Simulação para encobrir a verdade, fingimento: a torpe ficção de patriotismo, com que se investiu para indultar-se de matador de Titãs, de Cronos e quimeras (rapinagem de Camiliana.) Perturbou-se e estremeceu diante de ficções a que nem a poesia ou a arte davam realce e prestígio (Silveira da Mota, 1889) // Fábula, invenção fabulosa ou artificiosa// F. lat. Fictio. CLEPTOCRONIA: tempo que escoa, que nos assalta, que não perdoa
3.12.09
29.11.09
Mantra da decepção
E a música não cessa. A maior prova de que o Universo comunga de uma ordem sutil, duma harmonia interna, uma máquina dos diabos a rodar e rodar infinitamente, fumegando, apitando, rangendo e produzindo.
Correm as capivaras ressabiadas nos capinzais da CPTM, correm na pista os homens largando notas gordas pelos fundilhos, contra aviões que não lhe darão fuga. É tarde para largar o osso? Se ri o macaco no galho do outro, aquele que já não pode escolher pelo choro, rindo também: feito noz aberta contra os rochedos, o ketchup escorrendo na tela.
E a música não pára. Assumem os presidentes de si mesmo, fazendo as nações à sua imagem e semelhança, acelerando a noção de que o futuro está por trás de dentes que não usaremos, palavras que não plurificaremos, dedos à escanteio - pois que já não nos farão falta.
Mordem ainda os que conseguem, minoria chegada numa moda muito fora de moda, viola desafinada na multidão de ocupados úteis. E dóceis. E quem falou que precisaríamos de delirantes clones? É tudo tão mais sórdido, e patrícios se comem pelo rabo moral e pelo cabo da tevê.
Ah!, o amor. O que não pode, o ultrajante e bastardo amor da Humanidade pela ciência de si mesma. Afaga e esconde entre os seios gordos e sufocantes, amaciando o estertor com afeto e dedicação. Depois repousa o corpo já inerte e vela para que nenhuma ave agourenta devolva seu pó à terra; para que nada lhe seja maior que a mumificação e o simulacro. Pois deve parecer ainda vivo, para todo o sempre. Deve seguir vivendo no limbo dos sonhos, do intervalo antes do além e já muito longe de qualquer redenção.
Feliz o homem que é incorrupto pela inaptidão. Jamais experimentará do veneno, e será grande e arrogará ares de sábio, em sua estupidez patente.
E todos o respeitarão.
Correm as capivaras ressabiadas nos capinzais da CPTM, correm na pista os homens largando notas gordas pelos fundilhos, contra aviões que não lhe darão fuga. É tarde para largar o osso? Se ri o macaco no galho do outro, aquele que já não pode escolher pelo choro, rindo também: feito noz aberta contra os rochedos, o ketchup escorrendo na tela.
E a música não pára. Assumem os presidentes de si mesmo, fazendo as nações à sua imagem e semelhança, acelerando a noção de que o futuro está por trás de dentes que não usaremos, palavras que não plurificaremos, dedos à escanteio - pois que já não nos farão falta.
Mordem ainda os que conseguem, minoria chegada numa moda muito fora de moda, viola desafinada na multidão de ocupados úteis. E dóceis. E quem falou que precisaríamos de delirantes clones? É tudo tão mais sórdido, e patrícios se comem pelo rabo moral e pelo cabo da tevê.
Ah!, o amor. O que não pode, o ultrajante e bastardo amor da Humanidade pela ciência de si mesma. Afaga e esconde entre os seios gordos e sufocantes, amaciando o estertor com afeto e dedicação. Depois repousa o corpo já inerte e vela para que nenhuma ave agourenta devolva seu pó à terra; para que nada lhe seja maior que a mumificação e o simulacro. Pois deve parecer ainda vivo, para todo o sempre. Deve seguir vivendo no limbo dos sonhos, do intervalo antes do além e já muito longe de qualquer redenção.
Feliz o homem que é incorrupto pela inaptidão. Jamais experimentará do veneno, e será grande e arrogará ares de sábio, em sua estupidez patente.
E todos o respeitarão.
20.10.09
Ponhema Bifásico
I.
Ivo viu a uva.
A uva é do vovô.
Ivo vô-num-vô.
Vai.
O véio veve a vida e vocifera:
- Vaios!
O viadinho vacila.
E a uva lá. Do vovô.
Eita piada sem graça, seu moço.
II.
Ivo viu a Juliana.
A Juliana é uma uva.
O vovô é véio, mas é vivo.
Por isso, a uva é do vovô.
Ivo viu que é tudo vuco-vuco, que o vovô tá variando.
Vira pra uva e viaja:
- Mata o velho, MATA.
Ivo viu a uva.
A uva é do vovô.
Ivo vô-num-vô.
Vai.
O véio veve a vida e vocifera:
- Vaios!
O viadinho vacila.
E a uva lá. Do vovô.
Eita piada sem graça, seu moço.
II.
Ivo viu a Juliana.
A Juliana é uma uva.
O vovô é véio, mas é vivo.
Por isso, a uva é do vovô.
Ivo viu que é tudo vuco-vuco, que o vovô tá variando.
Vira pra uva e viaja:
- Mata o velho, MATA.
8.10.09
2222 Express - pra depois do ano 2009

Até onde seria possível desistir de tudo?
E depois voltar à tona e recuperar o tudo que se tem a ganhar ainda, quer dizer, ganhar a chance de continuar no jogo, na virada de cena, de mesa, virada de circunstância - pra ganhar todos os espectadores quase-involuntários que se amontoam junto ao cordão, enquanto a gente passa, pra ver se caímos nessa curva ou se ainda aguentamos mais um quarteirão.
O plano está feito. Resta seguir à risca com os detalhes - ah! os detalhes - e não falhar antes do ato final. Depois o além nos esperará, sorridente. Depois, no além, o horizonte longínquo e, às portas da percepção, lembrar o que passou será um esquecimento mero, uma tolice como estremecer a respiração já sem choro, um sem-razão de ser, de se ater. Correr, só correr. Ventar. Chover. Permear-se de pó, de grão, de areia.
...Até que meus olhos se embotem, semi-cerrados de deserto.
megaton_nero
8.9.09
Lígia.
Pudera: Inominável.
Prefiro calar. Ou antes, revelar o fragmento que me sobrou, rascunhado no verso dum cupom fiscal de jantar em sua companhia:
Faço pensar em tua flor secreta
Tua flor discreta e solitária
Tua inflorescência sem jardim
Que me devora o caule
E o caulim.
...e '.'
Prefiro calar. Ou antes, revelar o fragmento que me sobrou, rascunhado no verso dum cupom fiscal de jantar em sua companhia:
Faço pensar em tua flor secreta
Tua flor discreta e solitária
Tua inflorescência sem jardim
Que me devora o caule
E o caulim.
...e '.'
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