20.6.06

Cartas Jamais Escritas – Re:

tudo é evidente neste jogo (e o jogo está evidente em tudo): basta atentar para a própria existência para constatar que o ‘nada’ é um relance poético da memória autônoma em você. mas não, não vale à pena lutar contra ela. pois qualquer que seja o resultado, a teoria dos jogos valerá em ter previsto infelizes soluções: um homem sem memória é alguém que apenas nasce, a memória sem o homem é um vago esgar de morte, perene. no mais, experimentamos a suspeitável sensação de construir uma vida, um caminho, uma sequência de experiências mais ou menos bem-sucedidas, com começo determinado, um meio mal explicado, um fim hipotético.mas talvez pensar que “perder é conquistar a certeza de voltar ao ponto zero, ganhar é iludir-se em dar o primeiro passo” nos traga de volta a dimensão do problema. o quanto estamos preparados, quando a hora chega? para tudo, estaremos sempre no ponto zero. e sempre vivos: a memória não é rival, é cúmplice. por saber que o ditado é velho é que não esqueceste a primeira, nem a segunda vez – a memória nunca poderá derrotar-te, e o ponto zero nunca é igual (ou é todas as infinitas possibilidades: o universo em si mesmo)…

a saber: o círculo não é redondo.

abraços,
Megaton Nero.

foto por Any Manetta, via Flickr:Public Domain

19.6.06

Cartas Jamais Escritas - Preâmbulo

escrevi-lhe a respeito de minha memória nebulosa, do medo que tenho de tornar-me um alheio, um transeunte, tão logo este funesto aparar dos fatos se torne um aparar do tempo, dos sentidos, do horizonte. poderei ainda ser eu, sem distar do longe e sequer do perto, sem preencher limites palpáveis, um corpo, um crânio, o ardor de ser quem sou?já não tenho certeza. e repensar o caso é encurtar a corda, pois a memória falha da palavra mesma não reproduz – antes recria – o recém proferido, e o faz ecoar – sem arestas, sem respiros, sem virgular – uma dezena e mais de vezes; e o pensar fica pequeno, as idéias desprovidas do afã, é tudo gasto, repisado, revisto. fico sem saber se é a enésima vez (ou enésima primeira?) que descubro o mesmo velho ditado, que me retorço à mesma (?) velha piada. o mesmo velho sol perde altitude, perde cor; porque nasce todo dia é que não é mais mais sol, não é nada: talvez apenas um eco caricato da estrela que, no dia primevo de minha consciência de mundo, riscou no céu um caminho ao poente. serei nada então, quando as brumas do descompasso engolfarem minha noção de tempo, de espaço, de espelho?

no enquanto, sou a memória viva dentro de mim.

um abraço,
A.Montenegro

foto por
Any Manetta, via Flickr:Public Domain.

23.5.06

Cap. 7º - Onde Se Versa Sobre 'Primal Scream' Não Ser Pra Qualquer Um

...só pra insistir mais um pouco: os outros tem "personal style". Monk tem "primal scream". pronto! falei. pensei nisso uns dias atrás. agora deixa pra lá...

e porque gostar do torto, do desalinhado, do febril enviesado? porque lá existe rebeldia, nem que seja apenas um buraco negro faminto no espaço, engolindo a força de gigantes vermelhas e anãs albinas como um potente ralo dimensional.

é aí que entra o filme de aberrações do Tod Browning, falando justamente de anões e gigantes - nos quais se a estética não convida ao saborear visual, sequer tátil, têm na grandeza de aspirações sua valia de heróis (mais-que-humanos).

e porque não tenho mais tempo para perder com 'A Construção do Mundo', mas sim apenas com amenidades artificiosas, e o livre e inconseqüente consumo - que se realiza no ato em si - não posso me sensibilizar com as 'trivialidades' de uma Natureza desgovernada: grandes avalanches, novas atlântidas continentais, enormes liquidificadores de vento que arrasam as planícies por onde erram: nada mais me impacta. Mas talvez o último filme de ação impossível lançado nas telas grandes...

fica pelo chão as marcas que areia nenhuma há de cobrir: minha 'linha-de-mundo' que atravessa - desavergonhadamente - o caminho são e vaticinal.

...e agora volto ao miolo da fuligem espessa.

18.5.06

Cap. 6º - Onde se conta uma só história - em dois tempos

e porque me sinto às vezes como um animal irrefreável, um touro enjaulado, prestes a ser lançado na arena, é que estranho - verdade seja dita - como isso ainda não despertou uma figura "minotáurica" no meu espelho, quando com ele componho nosso face-to-face, toda manhã. verdade que nem mesmo posso evocar a falta de substância que me cerca, como exemplo de possível desvirtuamento, isso lá é. substância tem sido um capricho que meu bem querer tem tomado em sua atenção de honra, então seria eu, gritando, na cajadada desferida contra o próprio pé.

não, não, não. resta a mão estendida à bolachada.

(...)

há dias em que perco o fio. este novelo só consegui desatar hoje, 3 dias após o início deste novo capítulo - modo como resolvi chamar esses monólogos sem pé nem cabeça que aqui apresento ao saborear alheio.

acabo de ver Monk tocando a minha (e de muitos) preferida: 'Round Midnight. Ele com o quarteto, numa gravação que deve ter pelo menos umas 2 idades minhas, mas que permanece vanguarda pura, na essência. E, por outro lado, extremamente formal: certos valores o barbudo nunca abandonou. nem eu.


queria entrar, nesta noite, no barracão com Thelonious e as granadas sobre o piano, o general amordaçado num canto e aquela simpática vaca de presépio ao fundo. queria ir fundo na sua música, chorar com ela, dançar como ele. queria sentir o gosto do carvalho nos vinhos, e de framboesa, de baunilha, de madeiras mais exóticas e frutas menos conhecidas. ouvir a música que só os físicos ouvem, com suas composições de universos possíveis. queria, na verdade, comungar com o espírito dos naufragados: todos os homens que deram suas vidas pela arte, pelas ciências, por honrar o dom a que nem centenas de enormes parabólicas, voltadas às profundezas gélidas do espaço exterior - ininterruptamente - conseguiram encontrar eco: a inteligência.

dentre tudo que ocupa espaço e perfaz significação aqui, nessa dimensão, só nós podemos ouvir e compreender a Verdade. e isso diz tudo (agora vou voltar ao Monk, presente da Melissa-de-Itapuã a este inveterado amante dos deslocamentos complexos do ar).

14.5.06

Cap. 5º - Que diz ainda estarmos no caminho certo

há um repente que dói, mais que o espaldar das cadeiras. é a música sangrenta, odiosa e vil, e provoca rebentos em meus olhos aguadecidos. a música não enjoa, transpira a minh'alma derradeira, de gente que me faço agora. queria ser tronco, ser furo - ou não ser: que sentir o peso dos olhos sobre meu cadáver.

é difícil percorrer as ruas assim, sem braços. sem rosto. porque na rua a gente anda de encontrões, se arremessa diante dos transeuntes, dos elefantes de aço que cospem fumaça. na rua, o silêncio é vazio.

lacerantes violinos ainda me atormentam, a prestações. fujo de mim mesmo - para eu em mim: como o rato desinfecto que galga a roda rangente de sua gaiola. orgulhoso.

isso pra não dizer que sinto, de verdade, cada grito ancestral que se encerra em meu sobrenome, cada reticência das ervas que me são servis e caladas cumprem com sua função. ...a obediência também leva ao Paraíso. e elas hão de ter o delas.
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SAO, SP, Brazil
...just someone playing hard.