20.10.09

Ponhema Bifásico

I.

Ivo viu a uva.

A uva é do vovô.

Ivo vô-num-vô.

Vai.

O véio veve a vida e vocifera:

- Vaios!

O viadinho vacila.

E a uva lá. Do vovô.

Eita piada sem graça, seu moço.




II.

Ivo viu a Juliana.

A Juliana é uma uva.

O vovô é véio, mas é vivo.

Por isso, a uva é do vovô.

Ivo viu que é tudo vuco-vuco, que o vovô tá variando.

Vira pra uva e viaja:

- Mata o velho, MATA.

8.10.09

2222 Express - pra depois do ano 2009



Até onde seria possível desistir de tudo?

E depois voltar à tona e recuperar o tudo que se tem a ganhar ainda, quer dizer, ganhar a chance de continuar no jogo, na virada de cena, de mesa, virada de circunstância - pra ganhar todos os espectadores quase-involuntários que se amontoam junto ao cordão, enquanto a gente passa, pra ver se caímos nessa curva ou se ainda aguentamos mais um quarteirão.


O plano está feito. Resta seguir à risca com os detalhes - ah! os detalhes - e não falhar antes do ato final. Depois o além nos esperará, sorridente. Depois, no além, o horizonte longínquo e, às portas da percepção, lembrar o que passou será um esquecimento mero, uma tolice como estremecer a respiração já sem choro, um sem-razão de ser, de se ater. Correr, só correr. Ventar. Chover. Permear-se de pó, de grão, de areia.

...Até que meus olhos se embotem, semi-cerrados de deserto.


megaton_nero

8.9.09

Lígia.

Pudera: Inominável.

Prefiro calar. Ou antes, revelar o fragmento que me sobrou, rascunhado no verso dum cupom fiscal de jantar em sua companhia:




Faço pensar em tua flor secreta
Tua flor discreta e solitária
Tua inflorescência sem jardim
Que me devora o caule
E o caulim.



...e '.'

Dora.

devotada. olhando pedindo, calando a voracidade de um amor pagão que ali encontra a natureza linear de uma dona de ângulos simples. olhando bolinando, contraindo um sorriso campestre com cheiro de capricho, de maldade ingênua, de pecado de chita. de terra vermelha.

ela cala quando não pode mais, e busca na mirada dalgum lugar alhures a solução que não virá. e depois me procura, e esconde o rosto no labirinto de meus braços entrelaçados.

mas não se demora em buscar minhas mãos e encaminhá-las com insistência à raiz da fúria guardada e discreta. não se demora e faz-se prostrada, escrava temente, passiflora demente, a mera. não se demora e...

...e depois se aquieta. não fuma porque não sabe se perder. não bebe porque não conhece os abismos da alma. emudece e drome-negrita.

devotada. quisera um mundo simples como sua alma, adocicada como os arbustos de macela das encostas mantiqueiras.

Brunna.

nem mesmo as horas de um dia se passaram e já sinto tua ausência. ainda trago o cheiro do teu erotismo nas mãos, e a memória de tuas carnes na ponta dos dedos. desenho no ar os convexos onde encaixei minhas palmas, as polpas onde cravei os dentes.

é fato: esse teu olhar mortiço me evoca distrações de reis de outrora, cada vez que te acho me fitando - e mais de uma vez aconteceu, em sua cama improvisada, na casa de vãos ecoantes em que moras.

teu simplesmente me confunde, por vezes - eu, tolo, achando que simplesmentes não podem acontecer à sua juventude - que traz a redundância de suas vontades secretas no nome, e dobra uma letra que não se pronuncia. tal qual ela se dobra feito gata, e me oferece a flor depois do amor da manhã, e me provoca com dengos e deixas, entre sussurros e estalos dos lábios.

e como não dizer: da fúria calculada com que me presenteia, e sorri, feliz por deixar sua marca em mim - como a uma possessividade disfarçada, um somente-dela a quem me surpreenda desvestido (e isso soa como sinal de alerta às posteriores, que desistam desta alvura lunar, pois que aí uma debutante ninfa se alojou e garantiu colheita - e desta não pretende partilhar).

enfim, é tarde para o resto todo - resto que me racionaliza, e amanhã me espera na labuta - então findo este registro aguardando a cheia ou a lua negra: o que antes me traga novos folguedos de cama e aproximações, mais o calor providencial e este teu olhar cúmplice, cereja que me animaliza o espírito, e exorciza em ti minhas iras secretas.


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